A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

Seja bem-vindo. Hoje é
Deixe seu comentário, será muito bem-vindo, os poetas agradecem.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

ALLEGRO



Nuvens esgarçam-se; do céu em brasa
errante luz bruxuleia sobre vales ofuscados.
Pando com o vento quente procela
fujo a passo incansável
Atravessando uma vida nublada.
Ah, se por um instante
ao menos, entre mim e a luz eterna
uma propícia borrasca soprasse o cinzento nevoeiro!
Estrangeira é a terra que me cerca:
leva-me longe, arrancado da pátria,
de um lado para outro o poderoso vagalhão do destino.
Vamos, vento: corre com essas nuvens,
rasga esses véus
para que a luz me possa cair sobre os incertos atalhos!


Hermann Hesse
in Andares

E-book



Clique na setinha para ler o livro.Tecle F11 para ler em tela cheia.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010


(Foto by Antônio Carlos Januário)

love is a place
& through this place of
love move
(with brightness of peace)
all places

yes is a world
& in this world of
yes live
(skilfully curled)
all worlds

e.e. cummings


(sitting in a tree-)
o small you
sitting in a tree-

sitting in a treetop

riding on a greenest

riding on a greener
(o little i)
riding on a leaf

o least who
sing small thing
dance little joy

(shine most prayer)


e.e. cummings


may my heart always be open to little
birds who are the secrets of living
whatever they sing is better than to know
and if men should not hear them men are old

may my mind stroll about hungry
and fearless and thirsty and supple
and even if it's sunday may i be wrong
for whenever men are right they are not young

and may myself do nothing usefully
and love yourself so more than truly
there's never been quite such a fool who could fail
pulling all the sky over him with one smile

e.e.cummings

love is the every only god


(Foto by Fernando Campanella)


who spoke this earth so glad and big
even a thing all small and sad
man may his mighty briefness dig

for love beginning means return
seas who could sing so deep and strong

on queerying wave will whitely yearn
from each last shore and come home young

so truly perfectly the skys
by merciful love whispered were,
completes its brightness with your eyes

any illimitable star

e.e.cummings

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

As sombras correm



As sombras correm soltas pela noite
à cata de suas formas apagadas,
tecendo solidões que são abismos,
sinais que são multiplicadas máscaras



de uma face movida pela luz
que desata do feixe o movimento
e se dispersa em fugas para atar-se
à unidade que flui do próprio tempo.



Os cabelos transformam-se em ramagens,
as árvores caminham. As florestas
combatem. Exercita a quadratura
do circulo o artesão moldando a pedra,



polindo arestas, desenhando a fórmula
da sombra em sua ordenação geométrica
como um todo partido que se reúne
pelo esforço que move o vento, a terra.



As águas correm negras, desatadas
das formas, com seus silvos de serpentes
nervosas sobre o leito das estradas,
luzindo a cor sinistra das correntes.


(...)

Foed Castro Chamma
De Narceja - antologia de poesia. São Paulo, 1959
(Irati-Paraná- 1927,- Rio de Janeiro- 2010)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Noturno à janela



certas noites
a névoa invade
tão densa tudo
que impede ver
o outro lado da baía


não apenas
a linha do horizonte
ou o corpo das montanhas
ou mesmo o espaço de mar
e as ilhas interpostas


que toda noite
quase ocultos
já tendem a se tornar
mera hipótese
salvo a brisa
e o que nela há
de memória e suposição


mas sobretudo
os faróis
suas luzes intermitentes
ora pontuações do silêncio
ora suturas de uma arquitetura
sem limites sem traves
volumes insuspeitos opacos
sim um tudo desmesuradamente nada


Júlio Castañon Guimarães
(do livro Matéria e paisagem, 1998)
(Minas Gerais -1951)

DESACORDO



passos sem retorno
deflagram o desamparo da memória:

ruas em silêncio
te ignoram e se demitem
de fotografias imunes

resta
trégua irônica ante o pasado
um vago poema
desperto porém
contra as arestas do dia


Júlio Castañon Guimarães
(Minas Gerais - 1951)

A Sagrada Receita - IIII



As nenhuma palavra sobrevive...
O que se diz não diz o que se diz –
É essa profundidade bem acima
Da dor, onde passei a rosa a limpo.

Rosa desfeita em sílabas suicidas.
Ouço-a que quer o solo do poema.
Não há mais solo, o tempo está doente
Da ferrugem das noites solitárias.

Não mais beijo, nem poema ou nuvem.
Há um desenho de músicas quietas
Sobre o imóvel remorso do papel.

Há o lápis que enganei e que se deita
Sobre a fotografia das palavras.
E a mão pesada de uma ausência de asas...

Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

A passagem do tempo


(Décio Soncini)


Dantes a passagem do tempo deixava-se adivinhar
no contorno imperfeito das pedras que pisamos.
Os antigos conheciam os segredos dos caminhos
e dos muros e contavam velhas estórias
de sustos e de choro.
Agora, como marionetas cujo fio mágico
irrompe, giratório, à boca da cena,
assim a dança dos dias no calendário.
Com sinais de urgência.
Com movimentos apressados onde o caos se instala.
Com vozes que são águas tão fundas sob o peito
que perturbam o imenso silêncio das estrelas.


Graça Pires
in: 'O silêncio: lugar habitado', 2009

Aviso de Asas


(René Magritte)

Aqui estou, cercada de mim,
melancolia trazida
do interior de um bosque,
silhueta a preto e branco
na figuração de um pássaro em voo lento.

Há quanto tempo,
só eu sei quanto,
as amarras de um barco
se quebraram,
no interior frágil
do instante em que fui vento,
ou apenas um abandono breve,
como as mãos no acto de dar.

No ângulo do grito e da língua
se explica a leveza das lágrimas,
circunfluência no interior das pálpebras,
longínquo lago na cintura dos lábios.

Cheguei ao lugar onde se cruzam
todos os ventos sem hálito

e chamo pelo nome os frutos e a fome,
para que ninguém se comprometa
ao tocar nos meus ombros.

Graça Pires

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

E N T A R D E C E R



O crepúsculo desce! A tarde finda. . .
Que drama ante os meus olhos se descerra!
O sol, cansado da batalha infinda,
As pálpebras de luz no ocaso, cerra. . .


Silente a tarde a imensidade brinda!
Infinita saudade me soterra! . . .
Ante esta quadra misteriosa e linda,
Recordo-me dos céus de minha terra!


Olho o poente que aos poucos se avermelha!
Nesta contemplação a alma se ajoelha,
Deslumbra ao calor das grandes ânsias


E sequiosa do sol de outra paragem
Integra-se à beleza da paisagem
E mergulha na bruma das distancias! . . .



Jansen Filho
In: Obras Completas

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

PASSO A PASSO



Os passos são andaimes interiores
Com que construo a habitação da espera.
Chovem horas em volta até que um dia
Alguém descobre infiltrações no tempo.

Tudo está só. Tudo são passos sós;
Eles que vivem soterrando as asas.
Por isso os dias doem por entre as rosas
Que afasto em busca de uma dor sem flores.

Depois (pobre depois – nome de um nome;
Coisa que é coisa porque as coisas partem
Envelhecendo a infância do futuro)...

Os passos são fraturas no meu voo;
Oprimidos retalhos do infinito;
Portos viajando no porão de um barco.

Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)

O T E M P O



Indomável, invencível, arrogante
Como um rio a correr vertiginoso
Não te condoes nem mesmo por instante
Aos clamores dc um coração choroso.

Passageiro do mundo, incessante,
Num desafio bruto, desdenhoso,
Vais rasgando num gesto delirante
As entranhas da vida, impetuoso.

Conduzindo aos abismos do passado
Tudo quanto te surge no caminho,
Ó Tempo, não conheces a piedade!

Nada te faz parar. No triste fado
De não retroceder, seguir sozinho,
Só quem te faz deter é a Saudade.

Bernardina Vilar
(Crato- Ce- 1928-1997)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Reason



[The ending of a long prose essay titled ``On the Constitution of Church and State'', which I have not seen.]


... Finally, what is Reason ? You have often asked me ; and this is my answer :--
Whene'er the mist, that stands 'twixt God and thee,
[Sublimates] to a pure transparency,
That intercepts no light and adds no stain--
There Reason is, and then begins her reign !

But alas !

------`tu stesso, ti fai grosso
Col falso immaginar, sì che non vedi
Ciò che vedresti, se l'avessi scosso.'
(Dante, Paradiso, Canto 1, lines 88-90)



[You yourself blind yourself
With delusion's dream, so you do not see
What you'd see if you had shaken it off.]

1830

Samuel Taylor Coleridge
(Highgate, England, 1772-1834)

Do sofrer que se olvida à própria vida




I

O Olhar é devir esvai-se à chama;
com suplício que vê e não transcende;
em um contemplamento impotente;
olhar alucina-se carpir;

É um deslumbrar mais do que olvidar;
do padecer olhar por entre à relva;
que ao não se perceber de existente;
do sofrer que se olvida à própria vida;

É um esvair-se intenso ao evadir;
Olhar a quem percebe mesmo visto;
revisto com quem vimos infinitos.

Se puder olhar imagem esplendor
frugais imensidões felicidade;
Pondo si tal verdade a mesma dor?

II

Do prado, ao meu olhar serei lento,
mais, com mais velo, rente ao vento,
que do mesmo enlace com maior,
zelo se feche entorpecimento.

Penso olhá-lo de cada ser instante,
esplendor sabe com findar no alento,
ao bramir despertar do meu canto,
contentamento pranto imortal.

Portanto quanto arde mais à tarde,
quiçá tece à sorte desta angústia,
por quem com o dizer dimensão.

Eu inda possa olhá-la desta chama,
tecer-lhe sorte clamar do infinito,
quem sabe ilusão de fenecido.

Eric Ponty

sábado, 13 de fevereiro de 2010

NÉVOA DE PEDRA



Reais a página e a caneta e a tinta
E a mesa e o chão e os olhos das janelas.
E as sediças respostas da memória
Viciada em consumir o meu silêncio.

Reais a mão e a rédea dos seus nervos
E o rumor deste dia e o sol lá fora.
E o sexo da sombra inconseqüente
Propondo gerações de fiéis dilemas.

Reais as cores secas dos três reinos
E a aparência de morte dos minérios
E a entrevida das folhas e das águas.

Reais estas palavras inimigas –
Luzes pesadas esculpindo a angústia –
Bem mais leves que a névoa que elas moem.

Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)

PÁSSARO SEMPRE



A Olney Borges P. de Souza

O pássaro em repouso no telhado
Está florindo a música iminente.
Súbito, morre. E todo desabrocha
Numa jarra de céu – é o céu que voa!

Voa sua flor de pétalas vazias
Numa viagem de canções quietas –
Um ninho em fuga, uma implosão da morte
Nos telhados carente de repouso.

Porém, eu sei – não há pássaro morto.
Pássaro morto são todas as coisas
Sem pássaros – telhados de si mesmas,

Desaprendendo o céu e, de asas findas,
Errando o último pássaro possível,
Até que é Deus e a madrugada voa!

Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

TRAJETÓRIA


(Foto by Fernando Campanella)

Não proclames tuas palavras
quando a força de uma divina mão
te arrebatar para um centro
invisível e imóvel.

Como o mistério nos campos
de uma semente vingada
serás lançado a uma solidão imensa
mas não a profanes com impropérios
de teus conhecidos fantasmas.
Pode já não ser a angústia,
pode já não ser o tédio
se a alma assume, atemporal, a trajetória.

Fernando Campanella

TO THE NIGHT



This huge, old silence
has again cast its charms
upon the light.

Time to fill up my glasses
with moon's fluids -
and here's to the night.

Fernando Campanella

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Valley Candle




My candle burned alone in an immense valley.
Beams of the huge night converged upon it,
Until the wind blew.
The beams of the huge night
Converged upon its image,
Until the wind blew.


Wallace Stevens
(1879 - 1955 / Pennsylvania / United States)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Rotina



A idéia é a rotina do papel.
O céu é a rotina do edifício.
O inicio é a rotina do final.
A escolha é a rotina do gosto.
A rotina do espelho é o oposto.
A rotina do perfume é a lembrança.
O pé é a rotina da dança.
A rotina da garganta é o rock.
A rotina da mão é o toque.
Julieta é a rotina do queijo.
A rotina da boca é o desejo.
O vento é a rotina do assobio.
A rotina da pele é o arrepio.
A rotina do caminho é a direção.
A rotina do destino é a certeza.
Toda rotina tem sua beleza.


Arnaldo Antunes
(São Paulo 1960)

sábado, 6 de fevereiro de 2010

'Pequeno exercício do meio dia'



Minha alma partiu desta luz
das tardes frigidas desta dor
nos galhos destas árvores
nos cantos destes pássaros azuis
no olhar perdido das crianças
quer me trazendo N'Alma
às lembranças como frutos
presos aos galhos como maças
amadurecidas dos dias noturnos
sobre a relva que cândida cai.


Eric Ponty
(Minas Gerais)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Poema



Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.


Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.


Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.


Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.


Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.


Rosa Lobato de Faria
(Portugal-20 de abril de 1932/4 de fevereiro de 2010)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

ALGUMA COISA



Alguma coisa fica
do caminhar contínuo
e deste sono.

Alguma folha fica
da primavera
no outono.

Algum fruto, algum gesto, alguma voz.
Alguma coisa frutifica.
E fica em nós.

Renata Pallottini
(SP- 1931)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Es ist alles eitel


(Charles E. Gilbert, Alles ist eitel (1920)


Du siehst, wohin du siehst, nur Eitelkeit auf Erden.
Was dieser heute baut, reißt jener morgen ein;
Wo jetzund Städte stehn, wird eine Wiese sein,
Auf der ein Schäferskind wird spielen mit den Herden;

Was jetzund prächtig blüht, soll bald zertreten werden;
Was jetzt so pocht und trotzt, ist morgen Asch und Bein;
Nichts ist, das ewig sei, kein Erz, kein Marmorstein.
Jetzt lacht das Glück uns an, bald donnern die Beschwerden.

Der hohen Taten Ruhm muß wie ein Traum vergehn.
Soll denn das Spiel der Zeit, der leichte Mensch, bestehn?
Ach, was ist alles dies, was wir für köstlich achten,

Als schlechte Nichtigkeit, als Schatten, Staub und Wind,
Als eine Wiesenblum, die man nicht wiederfind't!
Noch will, was ewig ist, kein einig Mensch betrachten.


Andreas Gryphius
(Germany-1616 - 1664)


'The Vanity of This World'


Look anywhere you will, the Earth is empty show.
What someone builds today, another soon tears down;
Where now a city stands will be a grassy mound,
A place that only shepherds grazing their flocks will know.

What blooms so fair at daybreak, by noon is trampled low;
What bravely struts and strives soon turns to ash and bone;
No substance lasts forever, no brass, no polished stone.
One moment fortune smiles, the next brings bitter woe.

Tales of our mighty deeds like dreams must fade away.
How then should Man—Time's plaything—ever hope to stay?
Oh think, what are those objects we prize beyond compare,

Mere shadows, dust, and wind—all worthless, false and vain;
Field flowers glimpsed in passing and never seen again!
For that which is immortal, no man seems to care.

Andreas Gryphius

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

POEM IN OCTOBER



It was my thirtieth year to heaven
Woke to my hearing from harbour and neighbour wood
And the mussel pooled and the heron
Priested shore
The morning beckon
With water praying and call of seagull and rook
And the knock of sailing boats on the webbed wall
Myself to set foot
That second
In the still sleeping town and set forth.

My birthday began with the water-
Birds and the birds of the winged trees flying my name
Above the farms and the white horses
And I rose
In a rainy autumn
And walked abroad in shower of all my days
High tide and the heron dived when I took the road
Over the border
And the gates
Of the town closed as the town awoke.

A springful of larks in a rolling
Cloud and the roadside bushes brimming with whistling
Blackbirds and the sun of October
Summery
On the hill's shoulder,
Here were fond climates and sweet singers suddenly
Come in the morning where I wandered and listened
To the rain wringing
Wind blow cold
In the wood faraway under me.

Pale rain over the dwindling harbour
And over the sea wet church the size of a snail
With its horns through mist and the castle
Brown as owls
But all the gardens
Of spring and summer were blooming in the tall tales
Beyond the border and under the lark full cloud.
There could I marvel
My birthday
Away but the weather turned around.

It turned away from the blithe country
And down the other air and the blue altered sky
Streamed again a wonder of summer
With apples
Pears and red currants
And I saw in the turning so clearly a child's
Forgotten mornings when he walked with his mother
Through the parables
Of sunlight
And the legends of the green chapels

And the twice told fields of infancy
That his tears burned my cheeks and his heart moved in mine.
These were the woods the river and the sea
Where a boy
In the listening
Summertime of the dead whispered the truth of his joy
To the trees and the stones and the fish in the tide.
And the mystery
Sang alive
Still in the water and singing birds.

And there could I marvel my birthday
Away but the weather turned around. And the true
Joy of the long dead child sang burning
In the sun.
It was my thirtieth
Year to heaven stood there then in the summer noon
Though the town below lay leaved with October blood.
O may my heart's truth
Still be sung
On this high hill in a year's turning.


Dylan Thomas
in Collected Poems
(London: Phoenix, 2003)


*Dylan Marlais Thomas was born on October 27, 1914, in South Wales at 5 Cwmdonkin Drive in Swansea.
On November 9, 1953, he died at St. Vincent's Hospital in New York City at the age of 39. He had become a legendary figure, both for his work and the boisterousness of his life. He was buried in Laugharne, and almost 30 years later, a plaque to Dylan was unveiled in Poet's Corner, Westminster Abbey.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Fevereiro



Fevereiro entre dois amores:
Quaresmeiras e manacás.
O roxo pode ser amor primeiro
Mas arrasto asas ao branco
ao violáceo, ao lilás.

F. Campanella
da série 'Efemérides'

Janeiro



Janeiro curva palmeiras aos elementos,
chegam as araras e disputam os cocos,
corta implacável a traça do tempo -

eu no mundo vivo de amores,
dançam as palmas ao assédio
dos ventos.

(Fernando Campanella)
da série Efemérides

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Nuvens dos olhos meus, de altas chuvas paradas



Nuvens dos olhos meus, de altas chuvas paradas,
- por chãos de adeuses vão-se os dias em tumulto,
em noites êrmas e saudades longe morre.


Sem testemunha vão passando as horas belas.
Tudo que pôde ser vitória cai perdido,
Sem mãos, sem posse, pela sombra, entre os planêtas.


Tudo é no espaço - desprendido de lugares.
Tudo é no tempo - separado de ponteiros.
E a bôca é apenas instrumento de segredos.


Por que esperais, olhos severos, grandes nuvens?
Tudo se vai, tudo se perde, - e vós, detendo,
num prêso céu, fora da vida, as águas densas

de inalcançáveis rostos amados!


Cecilia Meireles
in Solombra

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

POEMA



nada a desenhar
sob o diamante do ollhar
poeta no abismo
medular

nem há no fundo
do coração do mundo
sonho ou vento demiurgo
que tudo venha explicar

carne ou metáfora — não importa —
sendo nada tudo alcança:
o poeta é a viagem
mesmo contra a esperança


Afonso Henriques Neto
(Minas Gerais - 1.944)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

'O POETA '



Também eu, sonhador, que vi correr meus dias
Na solene mudez da grande solidão,
E soltei, enterrando as minhas utopias,
O último suspiro e a última oração;
Também eu junto à voz da natureza,
E soltando o meu hino ardente e triunfal,
Beijarei ajoelhado as plantas da beleza,
E banharei minh'alma em tua luz, — Ideal!
Ouviste a natureza? Às súplicas e às mágoas
Tua alma de mulher deve de palpitar;
Mas que te não seduza o cântico das águas,
Não procures, Corina, o caminho do mar!


Machado de Assis
de 'Horas Vivas"

POÇAS D’ÁGUA



. . . poesia dançando nos campos da alma
na evocação da presença lagrima
a dormir na prece do vento irrequieto.


. . . murmúrio do amor que se deitou sozinho
na cama fria da desesperança
com saudade do abraço que aquece os corpos
do beijo a sussurrar promessas presença.


. . . procissão de vozes a se fazerem mar verde
de versos que o vento beija sem chorar
de ilhas virgens a não se deixarem tocar.


Poças d’água
em meus olhos pisados de paisagens alagadas
inundados de todas as vivencias
vivencias de meus horizontes tímidos
a repousarem sobre estradas gritantes.


Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Tempo

ANALOGIA



Torres de igreja
lembram
regressos próximos
ou alguém partindo
para não mais voltar.


Torres de igreja
lembram
o belo em sua pujança
almas em desespero por crenças
desafio de destinos
nunca cansaços ou incertezas.


Torres de igreja
lembram
flores que nunca fenecem
beijos que se eternizam
ou a fidelidade do mar
com palavras sem renuncia.


Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Tempo

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Houve noites


(Paint by Regina Noakes)

Houve noites em que sonhei
que o sol incendiava as pedras
que eu pisava.
Ou eram os meus pés
que ateavam o fogo?
À espera que as lembranças
me tranquilizem
cubro, com o véu do tempo,
o meu verdadeiro rosto.
Desfaço a bainha
dos panos que me vestem
com a farpa desta sede lenta
que se oculta na terra
sem retorno.

Graça Pires
De 'Uma extensa mancha de sonhos', 2008

Da tua ausência



Voltarei sempre às paisagens da tua sombra
enfeitada de madressilvas.
Gravarei o teu nome em todas as árvores,
sem marginalizar as razões da tua ausência.
Cantarei palavras sem espessura,
como moinhos de vento,
ou o frágil sabor da chuva.
Dançarei contigo na periferia da manhã
e direi onde começa e acaba
o secreto destino do silêncio.

Graça Pires
De 'Conjugar afectos', 1997

Interioridade



Aqui estou, cercada de mim,
melancolia trazida
do interior de um bosque,
silhueta a preto e branco
na figuração de um pássaro em voo lento.

Há quanto tempo,
só eu sei quanto,
as amarras de um barco
se quebraram,
no interior frágil
do instante em que fui vento,
ou apenas um abandono breve,
como as mãos no acto de dar.

No ângulo do grito e da língua
se explica a leveza das lágrimas,
circunfluência no interior das pálpebras,
longínquo lago na cintura dos lábios.

Cheguei ao lugar onde se cruzam
todos os ventos sem hálito
e chamo pelo nome os frutos e a fome,
para que ninguém se comprometa
ao tocar nos meus ombros.

Graça Pires

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

AQUELES QUE SONHAM



onde colocam a esperança
onde perderam suas florestas
antes nunca habitadas

. . . nasceram com deuses e os cultivam em seus jardins.
não se nutrem de uma ciência cega.
suas praias dormem o sono morno das paisagens ao poente.
não sujam suas mãos com sombras falsas.
lêem a leitura das danças honestas.
são eternos aprendizes do amor.
não se assustam da obscuridade das horas inexatas.
não se impacientam com as noites silenciosas e extáticas.
possuem mascaras de luas, sois e estrelas.
não se limitam a horizontes incolores ou a versos sem humanidade.
subemtem-se a desembrulhar emoções matizadas de valores
gastos ou não.
sangram, quando chega tarde demais o amor,
ou, suas raízes não as adubam nunca.
despem-se da petrificação dos dias iguais.

Aqueles que sonham
amam demais e exigem demais
do amor, da vida e da morte.

Oh, aqueles que sonham. . .
são poetas a contradizerem-se.


Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Vento.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

VER



Essas portas do ver: nos olhos belos
pálpebras simulando pétalas
fechando escuras rosas.
Abertas – túneis de luz varando trevas
(tréguas de um passado horto
de um porto se afastando).
A nave se arrisca e já é mar
de pálpebras descidas.


O jardim gera rosas e o espinho ríspido.
O dom vem do profundo: calor do frio
filho calmo do espanto
flor da cicatriz.
Pelas portas do ver nada retenho
sem raiz.


Dora Ferreira da Silva
In: Poesia Reunida
Jardins (esconderijos) 1979

domingo, 10 de janeiro de 2010

Tears, idle tears, I know not what they mean



Tears, idle tears, I know not what they mean,
Tears from the depth of some divine despair
Rise in the heart, and gather to the eyes,
In looking on the happy autumn-fields,
And thinking of the days that are no more.

Fresh as the first beam glittering on a sail,
That brings our friends up from the underworld,
Sad as the last which reddens over one
That sinks with all we love below the verge;
So sad, so fresh, the days that are no more.

Ah, sad and strange as in dark summer dawns
The earliest pipe of half-awakened birds
To dying ears, when unto dying eyes
The casement slowly grows a glimmering square;
So sad, so strange, the days that are no more.

Dear as remembered kisses after death,
And sweet as those by hopeless fancy feigned
On lips that are for others; deep as love,
Deep as first love, and wild with all regret;
O Death in Life, the days that are no more!


Lord Alfred Tennyson,
(England ,1809-1892)

sábado, 9 de janeiro de 2010

A Fine Day



After all the rain, the sun
Shines on hill and grassy mead;
Fly into the garden, child,
You are very glad indeed.

For the days have been so dull,
Oh, so special dark and drear,
That you told me, "Mr. Sun
Has forgotten we live here."

Dew upon the lily lawn,
Dew upon the garden beds;
Daintly from all the leaves
Pop the little primrose heads.

And the violets in the copse
With their parasols of green
Take a little peek at you;
They're the bluest you have seen.

On the lilac tree a bird
Singing first a little not,
Then a burst of happy song
Bubbles in his lifted throat.

O the sun, the comfy sun!
This the song that you must sing,
"Thank you for the birds, the flowers,
Thank you, sun, for everything."


Katherine Mansfield
(New Zeland- 1888-1923)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

'Improviso à janela'



Este é o começo do dia,
como o começo e o fim do mundo:
as nuvens aprendem a voar,
os campos vão sonhando nuvens,
o vento vai sonhando o pó
onde tristemente o amor palpitará.


Este é o começo do dia.
Vemos tudo o que já foi visto,
alguma coisa não mais se verá.


Nem sempre olhamos o dia
tão face a face e tão docemente.
Nem sempre sentimos esta saudade,
ainda ausente, ainda futura,
do que há e do que não há.


Este é o começo do dia:
- do céu, da luz, da terra, dos homens,
que acontecerá?


1954

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

ROSA CÉTICA



Mas cego,
o desamor
cria espinho
na terra.
Se houvesse
flor
seria
uma rosa?
Na nevoa.


Stella Leonardos
In: Rapsódica

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

VALSA DE ADEUS



Tudo é partida de navio, velas
ao vento, coisas desancoradas
que se desgarram. Este copo, esta pedra
que pronuncio não são palavras, nem
versos de amor, nem o sopro
vivificante do espírito. São barcos
arrastados pelo tempo, cascas
de fruta na enxurrada, lenços
de adeus, enquanto o vapor se afasta,
e de longe ilumina essa ausência que somos.


Rio, 15/3/80



Hélio Pellegrino
In: Minérios Domados

BALADA DE HEMINGWAY


(O Velho e o Mar (The Old Man And The Sea)
de Alexander Petrov)


O mar era pleno e puro.
ao fundo, a grande presença.
Em torno ao barco oscilante,
a infinita solitude
das águas, do céu, do vento.
O mar era pleno e puro,
em tôrno a pura beleza
no barco o desejo e o sonho
do lidador extenuado
sentindo a presença enorme
ao fim da linha retêsa.
O mar era pleno e puro.
Hemingway, que a dor me deixe
cantar a balada triste
teu velho, teu mar, teu peixe:
sim, que me deixe cantar.
O mar era puro e pleno:
era todo o imenso mar...


Tasso da Silveira
Poemas de Antes – l.966 –

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O MAR


O mar
acaricia
a areia branca
com tapinhas
de espuma...
As ondas
sussuram...

As ondas vão...
As ondas vêm...
As ondas vêm...
As ondas vão...

Levam
consigo
os sentimentos
na nostalgia
da tarde
morrente...

Delores Pires
In A Estrela e a Busca

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

En la niebla



¡Qué extraño es vagar en la niebla!
En soledad piedras y sotos.
No ve el árbol los otros árboles.
Cada uno está solo.

Lleno estaba el mundo de amigos
cuando aún mi cielo era hermoso.
Al caer ahora la niebla
los ha borrado a todos.

¡Qué extraño es vagar en la niebla!
Ningún hombre conoce al otro.
Vida y soledad se confunden.
Cada uno está solo.

Hermann Hesse
Versión de Andrés Holguín

domingo, 3 de janeiro de 2010

A UMA FLOR


Foto by Fernando Campanella


Hoje é dia de fotos.
Oh, delicada, universal vaidade,
seria impressão ou recolhes as pétalas
ocultando alguma ruga que mal desponta?

Mas não me respondas.
Alguns segredos melhor se guardam
no faz-de-conta.

Fernando Campanella

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

'SOBRE O OUTONO E AS ÁRVORES'



Não são os olhos das árvores
que vergam os galhos.

As folhas, e sua rebeldia,
deitam no chão,
o preço da pequena liberdade.

Nasce o outono,

o tom gris e a forma
invadem a casa e entram nos olhos

fazendo dormir ombros cansados.


Georgio Rios
(Bahia)