terça-feira, 28 de agosto de 2018
A vida me ensinou a dizer adeus às pessoas que amo, sem tirá-las do meu coração, sorrir às pessoas que não gostam de mim, para mostrá-las que sou diferente do que elas pensam ,calar-me para ouvir, aprender com meus erros ,afinal, eu posso ser sempre melhor! Fazer de conta que tudo está bem quando isso não é verdade, Para que eu possa acreditar que tudo vai mudar, a abrir minhas janelas para o amor. E não temer o futuro, A lutar contra as injustiças. Sorrir quando o que mais desejo é gritar todas as minhas dores para o mundo. Fazer de conta que tudo está bem quando isso não é verdade. Para que eu possa acreditar que tudo vai mudar.
Felix Faustine
(Excerto)
nos dias claros, nos dias de flores
para que sendo luz e perfume
eu possa penetrar os recantos sutis
da natureza inteira...
Mergulhar naquela nuvem branca
que se desmancha ao capricho do vento
e ser beijado pelas borboletas
e ser sugado por abelhas tontas
e morrer envolvido pela noite
enchendo-a de luar e de perfume.
José Expedito Rego.
(Oeiras PI, 1º de junho de 1928 – Floriano PI, 31 de março de 2000)
Amar é ter um pássaro pousado no dedo.
Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que,
a qualquer momento, ele pode voar.
Rubem Alves
sábado, 30 de dezembro de 2017
FELIZ ANO NOVO
Ano novo deve ser apenas um novo ano
daquele velho motivo que todos os anos
faz a gente pensar que este ano vai ser
feliz... Mas ainda é o velho tema...
Apenas sensação de permitir que sonhos
mortos enterrem os seus sonhos mortos,
enquanto a gente desperta antigas rosas
das que ainda permanecem adormecidas
nas páginas jamais abertas do jardim...
E nada de brincar de novos sofrimentos.
Ainda há muita amargura que necessita
de um funeral compatível com a liturgia
da cura pelos perdões não concedidos...
Então, depois de removida tanta pedra
desses túmulos todo ano reinventados,
a gente deseja apenas que o ano velho
acompanhe este ano novo no momento
de entrar pelas soleiras do coração...
Sementes de amor numa das mãos
e uma flor despojada dos espinhos
na outra mão...
Afonso Estebanez Stael
1943* - 2017+
sexta-feira, 28 de abril de 2017
SONETO PARA NAVEGAR
Há um tempo na vida que supomos
ter vencido sem trauma nem feridas
olvidando o sangrar das despedidas
sofridas nos poentes dos outonos...
E há um tempo de rosas renascidas
dos áridos desertos que nós somos
não obstante o estio vão os pomos
adoçando o penar de nossas vidas!
Ainda há um tempo que a saudade
como um rio que chora de piedade
nosso pranto carrega para o mar...
E vai além o nosso amor profundo
cantando no crepúsculo do mundo
a canção que a razão faz navegar!
Afonso Estebanez Stael
13.05.2014
ANIVERSARIAR
Aniversariar
é como abrir a janela pela manhã e ver,
sentir os outros bem diferentes,
mais ou menos amáveis, na nossa medida.
Aniversariar
é re-colocar parentes e amigos,
todos -- vivos ou mortos -- ao redor da mesa
da casa longe de casa.
Aniversariar
é tentar dissimular que hoje não é o dia
e não conseguir esse disfarce
simplesmente porque hoje é de fato
o dia do aniversário.
Aniversariar
é um limite e uma esperança
de que esse limite não se limite tanto
a um determinado momento em que se recebe abraços,
beijos e presentes.
Aniversariar
é qualquer coisa assim
como um motivo de fugaz felicidade
para o poeta fazer um poema de amor e amizade que dure
até quando se puder guardar esse poema.
Ricardo Dos Anjos
BRECHÓ DA ALMA
Sapato velho é um caminho andado
relembrado na sola de uma história
portanto não convém seja ignorado
como um fado perdido na memória.
Não joguem fora um livro desusado
sem lembrar se contém dedicatória
a alguém que faça parte do passado
que se apegou à uma paz simplória.
Meu coração tem eu e meus porões,
meu armário está cheio de emoções
por cartas devolvidas sobre a mesa.
Hei dobrado meus trapos na gaveta
vejo os dias sumindo na ampulheta
e com eles meus fardos de tristeza!
Afonso Estebanez Stael
(27.04.2017)
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
Poema de Ano-Novo
Poema de Ano-Novo
Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento
Fernando Pessoa.
In Poesia 1918-1930, Assírio & Alvim
ed. Manuela Parreira da Silva,
Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
PASSAGEM DO ANO
PASSAGEM DO ANO
O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral.
Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.
O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles... e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
Carlos Drummond de Andrade
In Reunião — 10 Livros de Poesia
(de A Rosa do Povo, 1945)
Ed. José Olympio, Rio de Janeiro, 1971
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Carlos Drummond de Andrade
Ocaso
“Ocaso”
Quando o ocaso se faz presente
Uma a uma as quimeras vão desaparecendo
Quais pássaros retornando ao ninho...
Para volver no pleno alvorecer...
Quando irão renascer as ilusões.
Dia após dia, se repetindo
Sem nunca realizar o tão almejado sonho...
O único certo é o incerto já conhecido.
Anna Carlini
de ''Fadado ao esquecimento''
'ANO-NOVO'
Meia-noite.Fim
de um ano, início
de outro.Olho o céu:
nenhum indício.
Olho o céu;
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.
E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.
Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta).
Ferreira Gullar
In Barulhos
O QUE MAIS QUERO
O QUE MAIS QUERO
Posso fazer o que mais quero.
Mas não faço.
Porque depois
ficava sem mais nada para sonhar.
Vieira Calado
A passagem das horas
A PASSAGEM DAS HORAS
A passagem das horas
o perpassar dos dias
o lento fervilhar do tempo em seus artifícios
de claridade e sombras
trazem-nos a este lugar preciso
de quietude
em ondulações do silêncio e apaziguamento.
É aqui
onde deveremos aprender
os festejos da luz
a sombra do pecado original
dos fascínios
pelo regresso urgente
a nossa casa.
Vieira Calado
em "OS DIAS E AS NOITES",
ed, Litoral 2014
quinta-feira, 14 de abril de 2016
Abismo
Nada prende o passageiro
e seu abismo de espelhos
onde reflete o destino
do tempo
Nada esconde o passageiro
e sua cabeça de estrelas
onde guarda bagagens
e vento
Nada espera o passageiro
no seu caminho de espanto
onde encontra a perdição
e o pranto
Nada perde o passageiro
com sua coragem sem bolso
onde enfrenta paredes
e fogo
Nada parte o passageiro
com sua arte de encontros
onde inaugura cidades
e sonho
Nei Dúclos,
em "No meio da rua".
Porto Alegre RS: L&PM Editora, 1979.
quarta-feira, 13 de abril de 2016
As elegias
É meio dia em minha
vida,
meu sonho
meu sol,
minha dança alucinada
no horto.
Para quem fui,
gotas ficaram pendentes
nas espigas.
Para quem sou,
canto humilde e ave
partida.
É meio dia em minha
vida,
este relógio de hastes
singulares e plurais
ceifando o tempo,
trazendo à luz
banquetes fartos e limpos
- irreais
Eulália Maria Radtke,
em "O sermão das sete palavras". Florianópolis SC: FCC Edições; Brasília: Thesaurus, 1985.
Vaso de flores
O som do vento
faz dançar a chama da vela.
O balé da chama
aquece as flores no vaso,
flores que ontem me deste.
Bruxuleia vermelho clarão
e o vermelho à sombra adere.
O vento gira, gira e gira
vibrando a chama da vela
que dança, ao giro do vento,
obsessiva, hipnótica dança.
Deitadas ao acaso, enrubescem
as flores no vaso.
Lá fora, a música do vento
adere ao latido do cão.
Fausto Rodrigues Valle,
em "A fonte do sal". Goiânia GO: Zamenhoff Editores, 1988.
segunda-feira, 14 de março de 2016
Exílio
Quando
a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades
Sophia de Mello Breyner Andresen,
in 'Livro Sexto'
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
"ABNEGADO"
(Para lembrar o dia do nascimento de Alceu Wamosy, (14/02/1895)poeta gaúcho, falecido aos 28 anos de idade)
Ama a tua própria dor, que ela há de consagrar-te
E há de te iluminar de límpidos clarões,
Fazendo da tua alma um rútilo estandarte
Bizarro, a palpitar em plácidas regiões!
Ela é que há de te guiar e é quem há de iniciar-te
Na vida do mistério e das consagrações.
Sofre e faz da tua mágoa um grande sonho de arte,
igual ao de Petrarca, igual ao de Camões!
E a sofrer e a cantar - mártir e rouxinol,
Vai armar a tua tenda a um ponto do universo,
Onde a luz só palpite, onde só vibre o sol.
Espalha então daí num gesto sacrossanto,
Os soluços da rima e as lágrimas do verso,
Num dilúvio imortal de bençãos e de pranto!
Alceu Wamosy
Poesias Completas
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